Baratas são as carochas




Ontem falava com uma amiga sobre o preço dos produtos biológicos e ela dizia-me - " a Quinta do Arneiro é considerada cara, há sitos onde se compra bem mais barato..."
Este é verdadeiramente um assunto que me tira do sério.
Outro dia perguntaram-me se tinha começado a produzir em modo biológico por ter encontrado aí um nicho de mercado muito rentável. A minha resposta foi e é: "Não, não pensei nisso, foi uma questão de acreditar que era o caminho certo e achei que encontraria quem acreditasse no mesmo que eu.  Não, a Quinta do Arneiro não tem preços caros, tem preços justos.
Porque decidimos tomar um caminho mais difícil mas que cremos, nos levará mais longe.

Na Quinta do Arneiro optámos por:

  • Produzir em modo biológico, sem recurso a qualquer adubo ou outros produtos químicos, porque acreditamos que os homens e a terra merecem o nosso respeito;
  • Respeitar os ciclos da natureza não produzindo nada fora de época, (mais valorizado) porque acreditamos no seu a seu tempo;
  • Produzir 20 a 30 variedades diferentes de hortícolas, porque acreditamos na rotação das culturas;
  • Deixar terras em pousio, porque trabalhamos na valorização dos solos; 
  • Ter como primeira opção de compra sempre produtos portugueses independentemente do preço;
  • Não pressionar os nossos fornecedores a praticar preços que sabemos os vão deixar em má situação financeira;
  • É verdade, queremos ter proveitos e queremos usá-los para a empresa evoluir, para pagar melhor  e para tornar o trabalho mais fácil;
  • Tentar todos os dias ser uma empresa sustentável e sustentada. Uma empresa tão saudável como os legumes que produzimos. 
 Deixo ainda aqui alguns pontos para vossa reflexão, os mesmos argumentos que dei à minha amiga e que depois de os ouvir me disse, "- é verdade Luísa mas nunca tinha pensado este assunto dessa forma, mas é verdade." E foi o facto de a ter conseguido "despertar" para o assunto que me deu alento para voltar ao tema hoje. Não vai ser fácil porque já estou, neste momento, com um turbilhão de argumentos dentro da minha cabeça e com imensa dificuldade em os arrumar, talvez enumerando consiga:


Consumir devia ser um ato de responsabilidade social, 
  • O ato de comprar é muito mais complexo do que possa parecer, isto claro se ao pegarmos em cada objeto que fazemos intenção de comprar pararmos para pensar. Claro que não o poderei fazer em cada compra, mas será que tenho presente quando compro que sou uma das peças do jogo?
  • Quando compro é muito importante que o faça de uma forma consciente e não pensando apenas no meu umbigo. Quando compro consigo pensar no rasto do produto? 
  • Queremos preços quanto mais baixos melhor, queremos vencimentos quanto mais altos melhor. A empresa que vende cada vez mais barato não pode pagar vencimentos para vez mais altos. Quando compro estou preocupado com o vencimento de quem produziu? 
  • Falar de lucros numa empresa tornou-se num assunto tabu. As empresas não podem ter lucro. Acho que esta ideia vem do facto de, infelizmente, haver cada vez mais empresas que só pensam no lucro pelo lucro. Mas há outras e muitas que felizmente querem ter lucros para progredir, para pagar melhor, para tornar o trabalho mais fácil a quem o faz, para dar mais regalias aos que trabalham todos os dias dando o seu melhor, para poderem dormir descansadas. Quando compra pensa que tipo de empresa está a "ajudar"? 
  • No fundo será que queremos que tudo se resuma a: eu quero ganhar muito bem e pagar muito pouco, independentemente das consequências que daí advenham? 
  • Nos países que temos como referência como tendo boa qualidade de vida. ganha-se muito bem mas também se paga muito bem. A mão-de-obra cara implica produtos caros. 
  • Claro que infelizmente nem tudo é para todos. Mas se os que podem optarem por pagar preços justos vão ajudar a elevar também o nível de vida dos que podem menos.  
 O consumo alimentar deve ser o mais consciente. 
  • Para eu poder comprar barato e cada vez mais barato, era importante que não esquecesse o que acontece pelo caminho.  Quanto recebe quem produz? 
  • Pressionar produtores a vender cada vez mais barato é muito mau, e é muito mau porque vai haver alguém na cadeia de valores a quem vai ser "cobrado" o custo. Ou é a morte lenta da empresa que dia para dia fica cada vez mais frágil ou é a exploração do trabalhador ou é a produção com recurso a métodos cada vez mais intensivos. Não há milagres. 
  • E isto é bem mais "perigoso" quando falamos de produção em modo biológico. Convêm não esquecer que este modo de produção tem aumentado, felizmente, porque chegámos à conclusão que a produção intensiva é má para tudo e todos. 
  • Mas a produção intensiva só nasceu e se tornou cada vez mais intensiva porque os consumidores a isso obrigaram. Produzir barato implica produzir muito rápido, implica não correr riscos na produção, implica atacar em força qualquer mal que apareça. Se o custo de produção é de 0,50€ e eu vendo a 0,60€, tenho que acelerar a produção, o que me obriga a usar e abusar de adubos químicos (aceleram o crescimento), não posso ter percas na produção, tenho que atacar em força qualquer praga que apareça recorrendo ao uso de fungicidas, insecticidas ... (matam qualquer praga ou fungo de um modo rápido e eficaz). E isto é justo. As empresas agrícolas são empresas agrícolas não são associações de solidariedade. 
  • A verdade é que os preços que se praticam na agricultura convencional são absurdamente baixos na maior parte das vezes, pelo que qualquer comparação com os biológicos já se baseia em dados viciados.  
  • Se o consumidor começar a exigir preço cada vez mais baixo aos produtos em modo biológico, arriscamos a que as coisas não corram muito bem. Como as empresas para viver, ou nem que seja sobreviver, têm que dar pelo menos resto zero, o que vai acontecer se não conseguirem suportar produzir segundo as regras de MP Biológico a preços tão baixos? como se podem dar ao luxo de perder 30% da produção (com uma praga) se a margem for de 10%? 

 Voltando à Quinta do Arneiro e ao que gostávamos muito que acontecesse :
que a opção de ser cliente da Quinta do Arneiro fosse também uma opção de princípio.
Porque acredita nos princípios que nós defendemos, porque quer ser parte ativa do projeto, porque consumir é muito mais do que o simples ato de comprar, porque comer pode e deve ser muito mais do que saborear e engolir.











5 comentários:

  1. Concordo com tudo! É assim que eu penso enquanto consumidora.

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    1. Os vossos produtos fazem-me recordar a minha infância, há sessenta anos, em casa dos meus avós.
      Maria Isilda

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  2. GRANDE artigo, querida Luisa !!! Não a conheço pessoalmente mas já vi que é uma Mulher de fibra e cheia de garra ! Muitos Parabéns por pensar assim e assino completamente por baixo ! Tenho a certeza que somos cada vez mais a pensar assim pelo Mundo fora. VIVA !!! Nunca deixe de pensar como pensa e de sonhar os seus sonhos. Um GRANDE abraço. <3 <3

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  3. Infelizmente, de facto, as pessoas não param para pensar ou já perderam o hábito de raciocinar sobre o mundo que as rodeia (o que não admira tendo em conta a velocidade a que temos de atender a tudo e a todos enquanto o marketing nos enfia tudo pela porta adentro com soluções "tão" práticas para todos os nossos problemas!!
    Muito obrigada por este artigo, espero que tenha um gande alcance e faça a diferença, só assim podemos aspirar a um mundo melhor.

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  4. Há um livro muito interessante, "Uma ideia de felicidade", do escritor chileno Luis Spulveda e de Carlo Petrini, o fundador do movimento Slow Food. Não é especificamente sobre agricultura biológica, mas reflete algumas preocupações sobre a agricultura, e pecuária, em larga escala. A dada altura, nesse livro, é deixada a seguinte questão: em vez de nos questionarmos porque é que estes produtos (de agricultura biológica ou em menor escala, de proximidade, produções familiares, etc) são tão caros, devíamos era perguntar porque é que outros (processados, altamente industrializados, em larga escala) são tão baratos. Acho que resume bem o problema.

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