A Vida das Nossas Alfaces

Reflectir sobre a vida das alfaces não é algo que nos venha à cabeça de cada vez que nos deparamos com um prato de deliciosa salada. É natural que a maioria das pessoas não imagine o trabalho que cuidar destas vidas pode dar.  A verdade é que, apesar de não ser muito exigente em atenção, a alface precisa do nosso acompanhamento diário.
Estando atentos às suas necessidades, alguma comida logo no principio da vida(é de pouco alimento), água (aqui já é mais exigente), calor e luz ela não pára de crescer. Dito assim até parece fácil ...
Claro que há sempre alguns perigos, doenças que podem atacar, mais no Inverno, porque é atreita a prodridões e não gosta de tempo húmido, bichinhos (pragas) que aparecem sem convite, nomeadamente afídeos, mais conhecidos por piolhos, que são os mais assíduos, aparecendo normalmente em multidão, e difíceis de convencer a sair.
Depois há trabalhos que não podem deixar de ser feitos. Temos que ir mondando as infestantes (arrancando as ervas ) que vão aparecendo, se não o fizermos atempadamente corremos o risco que se apoderem do talhão e "engulam" a cultura.
Mas chegando ao fim da vida sem percalços, no Verão será colhida um mês e meio depois da semente  ter sido lançada à terra, sendo que no Inverno leva mais quinze a vinte e tal dias.

O que gostava de vos passar com todo este discurso é a necessidade de valorizar o trabalho, dedicação e atenção que são necessários para cultivar alfaces. Acredito que estando a par do que se passa na horta seja mais fácil questionar como é possível que o agricultor chegue a vender alfaces a 1€/kg (100 kg são muitas alfaces e podem valer apenas 100€) e isto quando estamos a falar de alfaces biológicas, porque na agricultura convencional chegam a ser vendidas por 0,20€/kg. Claro que por este preço é natural que o agricultor tenha que "injectar" adubos em todas as regas para acelerar ao máximo o crescimento, todos os minutos da alface na terra são dinheiro.
E o pior é que é o próprio consumidor que as vai comer que "obriga" o agricultor a produzir deste modo ao exigir que a alface seja cada vez mais barata.

No dia em que o agricultor já não conseguir produzir mais barato vai desistir e quando desistir já não vai haver alfaces .... ou vai haver só uma espécie de alfaces produzidas numa espécie de fabrica de alfaces, onde não pode entrar um grão de terra para não contaminar, onde a alface vive em água e é alimentada "artificialmente", cresce muito depressa, não há ervas para mondar, os "perigos" são controlados através de um sofisticadíssimo sistema ao minuto.
Eu não quero alfaces assim!
Diria que vale a pena pensar nisto...

1 comentário:

  1. Espreita um post no meu blogue com o título Tudo é FAKE.
    Vai apanhar um susto e temer o futuro.

    No final fala de que já não se vão produzir alfaces... Pois na china já fazem alfaces, ovos, carne, melancias e tanta coisa mais a partir de... plástico!

    E não é decorativo... Engana. Os ovos dão até para serem batidos. Isto é assustador. O futuro, para o pobre, vai ser comer o que não é fingindo que é e dizendo que não faz mal, pelo contrário... Assusta. Antigamente o pobre, mesmo pobre, comia pouco mas comia puro. Os pobres do futuro vão ser privados de comida autêntica.

    Conheço vagamente o que se passa com cada coisa que se coloca na terra. Não é um conceito tão abstrato assim. Aprende-se na escola o tempo de um fruto, a altura da colheira, do plantio... do pousio (da terra). E meu avô tinha uma horta citadina - como tantos ainda hoje têm. Vivia lá, a cuidar das suas alfaces, cenouras... à volta do crescimento saudável e quando conseguia livrar-se de parasitas, por vezes apareciam os parasitas humanos que lhe 'fanavam' tudo sabe-se lá com que propósito... Então, cada fruto ou vegetal pronto para ser apanhado, era prontamente apanhado e conduzido à mesa de quem precisasse :D

    Infelizmente a câmara depois mandou tudo abaixo na promessa de construir ali um empreendimento. Passaram-se uns 20 ou mais anos e o terreno que antes era de hortas continua baldio. Só o vi ser usado por ciganos, como acampamento.

    Bom, mas dessa longíqua altura tenho boas recordações. Adorava arrancar as cenouras e comer logo ali, depois de lavadas. Plantava feijão verde, ervilhas - que é o que me lembro mais porque cresciam em estacas. Lamento que qualquer conhecimento que tenha possuido a respeito de como fazer crescer tanto alimento com métodos lá dele, transmitidos por outras pessoas de outra geração a trabalhar na terra, que por sua vez eram filhos de outra geração, tenha morrido com ele.

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