Prefere não pensar?

Mais valia não ter saído. 

Ah... que temos que ser mais positivos, mais leves, mais soltos... Começo a achar que neste mundo que estamos a construir, ser positivo, leve e solto é ser alienado, ou meio pateta, ou ser daqueles que "sempre viram as coisas acontecerem assim" e optam pela confortável posição de "prefiro não saber". 

Hoje saí da Quinta por duas horas e voltei incomodada.  Incomodo-me porque escolhi não virar a cara nem dizer "prefiro não saber". 

As fotografias não estão do melhor dadas as circunstâncias, mas são reais e servem para ilustrar o que me incomodou. 


A primeira a de um homem que vinha, assim completamente mascarado pela estrada fora. Acredito que saberão o que andava a fazer, mas reforço: andava a aplicar herbicida nas bermas da estrada nacional para queimar as ervas ....
Tão, mas tão errado! Tudo errado. O ato, o local e as consequências
Se um homem tem que andar assim camuflado para espalhar herbicida dá para perceber o tóxico que é e o mal que faz. Dizem que tudo se esvai nos "intervalos de segurança", sim é verdade, passados alguns dias ou semanas , conforme a toxicidade, já não há resíduos... pois, mas entretanto já queimou tudo, já se espalhou pelos lençóis de água... já foi por aí ... 

Mas não ficamos por aqui na falta de senso. Se já não faz qualquer sentido o uso de herbicida (por exemplo em Lisboa os passeios estão meios "feios" com ervas porque deixaram de o aplicar. Palmas para a decisão) , muito menos o fará numa berma de uma estrada nacional.... Porquê?  pergunto. Só porque quem tomou esta decisão é dos que prefere a linda frase "prefiro não saber".



A segunda tirei já no regresso a casa. Vinha atrás de uma camioneta cheia de porcos.  O cheiro aguçou a minha reflexão sobre a "subtiliza" com que "mudaram" as condições de transporte destes animais. Antigamente eram camionetas abertas que escancaravam todos os males, que mostravam os animas em cima dos outros, a urina que escorria para a estrada... enfim, a desgraça estava ali para quem a quisesse ver. 

Mas tudo mudou (...). Agora vão instalados em camionetas com andares e bem mais fechadas para passarem discretas, longe da vista. Também já não há líquidos a escorrer ... Como quem diz, tudo mudou. Pois ..  mas não mudou. Mudou só e apenas o embrulho. Os tais washings da vida que fazem querer que estamos todos mais preocupados. 

Fiquei a pensar, com certeza que os produtores não vêem estes porcos como animais mas como objetos. O exemplo dos porcos é gritante. Têm literalmente uma vida de cão. Mas será que os produtores não conseguem fazer uma reflexão? bem sei que por vezes está tudo em causa. Mudar as condições de vida dos porcos pode ser absolutamente incompatível com o preço a que os conseguem vender. 

Mas, vinha eu a pensar, e se fizessem das melhorias de condição de vida para os porcos, criar porcos em parques ao ar livre, campo e terra onde pudessem chafurdar (termo tão bem aplicado aos porcos) o mote para valorizar a produção e poder negociar melhores preços? Será que já alguma vez pensaram nisso? 

Hummm.. isso é muito bonito de dizer, exclamarão os céticos. Talvez não. Somos um exemplo de que é possível valorizar através do modo como se produz. É que sabem? os consumidores não são Tótós :-) 

Sem comentários

Enviar um comentário

© A vida de uma alface
Design:Maira Gall.